sexta-feira, 4 de abril de 2008

Uma triste história de palhaço!

Não sou nem nunca fui um grande fã de palhaços. Na verdade, hoje os admiro mais do que na minha infância. Acho que mesmo quando criança considerava as brincadeiras um tanto sem graça, talvez em um gesto de falsa maturidade.

Isso me faz lembrar de uma colega na época do colégio, mais precisamente na quarta série. Seu pai era um palhaço. E antes que pareça uma brincadeira de mau gosto, digo: um palhaço mesmo, de verdade; assim tipo, profissão: palhaço!

Não era um palhaço de circo, mas um palhaço autônomo, freelancer, daqueles que animam festas infantis, turmas de colégio, jardins de infância, enfim, sobrevivem.

E foi assim que o Palhaço Faísca foi parar na minha escola para fazer duas apresentações, ao longo de uma semana, para todas as turmas até a quarta série.

A alegria era geral, não apenas pela expectativa da apresentação, mas também porque fomos surpreendidos com a notícia no meio da tarde. Quando achávamos que teríamos aula, a tia anunciou a grande atração na escola. Foi aquela vibração!

Mas a alegria durou apenas até o início do espetáculo. Foi sofrível. E olha que para um grupo de crianças taxar dessa forma uma apresentação que supostamente deveria ser divertida, facilita um pouco pra visualizar o fraco desempenho do Faísca. Porém, algo chamou minha atenção. Minha colega divertiu-se do início ao fim, olhava fixo para o pai e, mesmo sem dirigir uma palavra para ninguém durante toda apresentação, seus olhos marejados de tantas gargalhadas não disfarçavam sua inocente emoção com aquilo que para nós poderia ser motivo de risadas, afinal de contas, para ela, seu pai sempre foi um palhaço.

Nunca entendi muito bem, até porque tinha vergonha de perguntar como era ser filha de um palhaço. Mas imagino que durante muitos anos deve ter sido algo bem divertido. Muita espirituosidade, alegria, bom humor. Mas na minha cabeça esses fatores nunca relevaram as chacotas de quando alguém perguntava “o que o seu pai faz?” e a pobrezinha tinha que responder “meu pai é um palhaço”.

O show acabou, todos de volta para a aula. Alguns dias depois chegou o segundo momento mais esperado da semana: a nova apresentação do Palhaço Faísca. E o que era pra ser algo corriqueiro se desdobrou em um fato que me faria lembrar desse momento pro resto da minha vida. Crianças na faixa dos 10 anos de idade, na quarta séria, preteriram o espetáculo por um trabalho de ciências na sala de aula. Exatamente! Crianças preferiram ficar estudando em vez de se “divertir” com as palhaçadas.

Uma lágrima oscilava no rosto da minha colega, a filha do Faísca. Para compensar, a professora sabiamente autorizou a menina a assistir ao show do seu pai, o que evitou além de mais algumas lágrimas, o primeiro incidente diplomático da minha vida até então, já que o trabalho de ciências foi uma tentativa de chantagem da professora a fim de desestimular os alunos a permanecerem em aula.

Mais tarde (alguns anos depois) descobri a verdadeira razão daquelas “palhaçadas”. Minha colega e sua família tinham uma vida bastante humilde, daquelas que um palhaço tem condições de oferecer. Em dificuldades financeiras para pagar a mensalidade do colégio, o senhor Faísca ofereceu seus serviços em troca de um alento em suas dívidas. Não sei qual foi o resultado dessa empreitada, até porque pelo que lembro minha colega deixou o colégio no ano seguinte.

De certa forma, todas aquelas brincadeirinhas deram lugar a um sentimento de vergonha. Quem poderia culpar um pai que de maneira honesta tenta oferecer à sua filha uma educação melhor do que a teve? Cada um com as suas palhaçadas, gerando ou pagando dívidas.

Se soubesse desse fato antes das apresentações, talvez tivesse presenciado o segundo show do Fantástico Faísca (mesmo que por razões alheias à qualidade do seu show) em solidariedade a minha colega. Mas é difícil pensar nisso depois do acontecido.

E me dei conta de como as crianças podem ser cruéis. Mas agora pouco importa a minha opinião atual ou daquela época sobre palhaços. Quando vejo que algo que era pra ser divertido, ou uma grande palhaçada a rigor da palavra, acabou assim, em uma triste história de palhaço.